Análise: JoJo’s Bizarre Adventure Part 8: JoJolion

Só para constar, eu comentei bastante sobre o mangá aí, nem me preocupei com a parada dos spoilers. Se for comentar, LEIA o texto primeiro antes de falar qualquer asneira que o texto já tenha respondido por si só.

Eu me lembro muito bem de quando JoJolion foi anunciado ao fim de Steel Ball Run, finalmente lançado, e de quando traduzimos e trouxemos o primeiro capítulo pela Anime Nostalgia, em 2011. Desde então, dez anos se passaram e um monte de coisa mudou na minha vida, inclusive a própria base de fãs de JoJo’s Bizarre Adventure, que saiu de um amontoado de pessoas para se tornar um verdadeiro fandom. Da mesma forma que minha vida mudou para um caralho, a magnitude da própria série também mudou.

O início de JoJolion se deu em um momento complicado para o Japão, que ainda estava se recuperando de um terremoto catastrófico que assolou o país — e que resultou em uma série de outros desastres que vão desde um tsunami a até acidentes nucleares (Fukishima) — e foi desse acontecimento que o Araki puxou o gancho para o início da parte 8. Bom, vamos lá: o negócio começa com uma garota chamada Yasuho Hirose em um terreno completamente hostil chamado Paredes-Oculares, onde ela está fugindo do assédio de Josh Higashikata, que é um puta de um chato.

Nisso, ela se depara com um peladão soterrado que a salva utilizando uma habilidade esquisita, sua Stand, que removeu temporariamente a visão do Josh. Entretanto, o jovem não se recorda a respeito de seu passado, mas tem quatro bolas, o dobro de um tradicional par único de testículos. Depois da briga, todo mundo sai machucado e vai parar no hospital por um tempo. Enquanto Josh fica sendo o cretino que é por conta própria, Yasuho se une ao peladão em sua busca pelas suas memórias, quando se deparam com o nome Yoshikage Kira, alguém com quem dividia o DNA. Pontualmente, ele também recebe o nome de Josuke e é adotado pelos Higashikatas, ficando sob a supervisão de Norisuke (descendente do véio japonês da corrida da parte 7), que acredita que a presença do jovem seria particularmente boa para seus filhos.

Josuke se vê em uma série de desmembramentos diferentes em sua busca por sua identidade, algo que o faz vasculhar e aprender sobre toda a família Higashikata (que descobrimos descender dos Joestar), além de se encontrar no meio de uma trama que envolve o misterioso fruto Rokakaka, cujos poderes misteriosos são capazes de realizar uma troca equivalente com seu consumidor, e uma espécie ancestral de homens-rocha que vivem há séculos entre os humanos.

Esse enredo se estendeu por dez anos em capítulos mensais cujo número de páginas variava entre quarenta e sessenta. Logo de cara, já adianto que o principal problema de JoJolion é ritmo. Analisando a grosso modo, os acontecimentos principais da parte 8 demoram muito para acontecer porque se trata de uma narrativa sentidamente arrastada. Os acontecimentos específicos são transmitidos de maneira muito longa e se estendem por mais tempo do que normalmente deveriam.

Porque, vamos lá: logo após a introdução, o Josuke descobre uma palha sobre seu passado como Yoshikage Kira e ele logo é adotado pela família Higashikata. Lá dentro, ele começa a estabelecer vínculos com Daiya, que se mostra apaixonado pelo jovem. Sabe onde essa trama toda vai parar? Lugar nenhum. O Norisuke fica furioso quando descobre que sua filhinha não é tão ingênua e inocente assim, acreditando que o Josuke tem culpa no cartório. Sabe no que essa questão desemboca? Em nada. Também descobrimos que a empregada, Kei Nijimura, é irmã do Kira da parte 8 e filha da Holly. Sabe qual é a utilidade dessa informação e o envolvimento dela? Quase nulo, salvo um acontecimento pontual do clímax, quando ela quebra um galho contra o vilão só para bater as botas depois. Contribuição do arco do Milagro Man? Zero.

Na prática, são peças muito pequenas do quebra-cabeça a respeito do mistério acerca da identidade do Josuke para momentos muito extensos que não dão em lugar nenhum e arcos excessivamente longos com batalhas consideravelmente chatas e, convenhamos, bastante repetitivas.

E tem a questão da inconsistência: enquanto a primeira metade se focou em um tom de mistério em volta da identidade do Josuke, a segunda simplesmente virou uma espécie de corrida pela tal Rokakaka no intuito de curar a doença misteriosa de Holly — que provavelmente foi causada justamente por causa de experimentos com tal fruto, só que ninguém sequer para e questiona isso, seja na própria série, seja no fandom no intuito de perceber que nada faz sentido. Eu gosto do ritmo acelerado da segunda metade. O revés está no contraste entre as duas e na maneira como os enigmas que iam surgindo na primeira parte, antes do Tamaki Damo (coincidentemente, quando a Alliance acabou e parei de traduzir o mangá), foram apenas deixados de lado na segunda em prol de ter a Rokakaka como centro da trama. No intuito de garantir fôlego a um enredo, é comum as histórias sofrerem reviravoltas bruscas quando elas chegam à metade — aliás, é o be-a-bá de uma narrativa —, mas o foco deveria se manter em prol da consistência linear da obra.

Esse fato me lembra daquele que eu considero ser o principal defeito de Diamond is Unbreakable: a história começa a ser trabalhada de uma forma que dá a entender que seu vilão central seria o Akira Otoishi e, chegado determinado momento, ele é descartado e o Kira surge do nada. O anime até reconhece essa mudança de direção como uma falha e tenta consertá-la, apresentando o Kira mais cedo, o que não muda o fato de que a linha original do mangá é diferente.

Outro aspecto que é bastante incômodo em JoJolion é a maneira como o Araki deixa muito personagem em standby sem necessariamente dar cabo deles, dando a entender que eles não vão voltar. A própria Kei Nijimura, a despeito de sua aparição conclusiva, é uma delas, ao lado da Daiya Higashikata e a Hato, a filha mulher mais velha do Norisuke, que têm um único momento de destaque e depois só servem para ficar ao fundo, fazendo cara de paisagem. O mesmo vale para a Sakunami Karera, que apareceu uma vez para nunca voltar. Tratam-se de personagens que tomam seu tempo de desenvolvimento inicial, dão a entender que podem reaparecer no futuro, mas são deixados de lado quase até o fim.

Infelizmente, a pior de todas nesse ponto de vista é a matriarca dos Higashikata, a ex-mulher do Norisuke, Kaato Higashikata. Ela tem uma introdução interessantíssima sobre como foi parar na prisão por acobertar uma merda feita pelo primogênito, Jobim, para então ganhar uma única cena de destaque no final e cair morta sem mais nenhuma influência na trama ou no mistério em si. Eu admito que ela aparecendo de sopetão na batalha definitiva contra o chefão de Jojolion foi incrível, mas quanto mais deslumbrante é essa participação, pior a escrita se revela, uma vez que ela surgiu naquela hora como uma espécie de Deus ex-Machina que foi tirada do cu sem qualquer tempo de tela como uma personagem ativa. Independentemente de Kaato ter uma cena foda no final, eu não consegui me apegar a ela quando morreu, igual ao Jobim, que é um baita de um pé no saco com seus aforismas baratos. Denota-se um problema com os personagens secundários no sentido de é difícil se apegar a eles, mesmo mostrando potencial.

Falando um pouco mais a respeito do vilão, ressalta-se que ele é discutivelmente um dos mais fracos de toda a série justamente pelo pouco tempo de desenvolvimento. A aparição súbita de Tohru é até que proposital, visto que depois é mostrado que, de uma maneira ou de outra, ele sempre esteve presente na vida da Yasuho e serve logo para explicar como certos acasos não existem, com quase tudo conectado (ou ao menos deveria, mas o próprio Araki fracassa em fazer esse tipo de ligação porque é da sua filosofia de trabalho esquecer o que escreveu no passado).

Ainda assim, o tempo escasso de desenvolvimento é prejudicial porque ele não serviu para dar uma cara e personalidade para o sujeito. Como chefe da organização dos Homens-Rocha que são os responsáveis pelo tráfico de Rokakaka, o cerco em volta dele vai se fechando depois de Josuke ir desmantelando um a um os outros membros desse conchavo. A despeito de ser uma prática tradicional da série apresentar formalmente os antagonistas principais apenas nos arcos finais, é comum que ao menos a presença deles esteja lá no decorrer da narrativa, o que infelizmente não acontece aqui, por mais que tenha havido uma tentativa de fazê-lo retroativamente, como constatado no parágrafo anterior, quando eu disse a respeito de sua influência constante na vida dos personagens — no caso, é revelado como Tohru influenciou a vida da Yasuho desde sua infância.

Ironicamente, Yotsuyu Yagiyama e Tamaki Damo, seus subordinados, são deveras memoráveis nesse aspecto do que Tohru. É claro que eles provavelmente foram escritos como pessoas importantes até o momento em que a história foi decidindo que a organização era cada vez maior. Quanto mais homens-rocha apareciam, mais sem graça eles iam ficando, especialmente depois da inclusão daqueles Animais-Rocha de nome esquisitíssimo que em nada complementam à trama. E tem o Jobim de comparação, pois por mais chatonildo que ele seja, ainda consegue demarcar presença com o seu jeito esquisitão e irritante de ser.

Então, né? Tudo é muito enfadonho, longo e chato. Sabe quando eu digo que os elementos de enredo deveriam estar conectados? Pois bem, negue o quanto quiser, mas o Araki esquece. Ele vai implementando uma porrada de coisa para simplesmente esquecer, descartar ou fingir que nunca existiu. Isso é da própria filosofia dele (só ver as entrevistas e ler o livro em que ele mostra o próprio processo criativo). Tratando-se de um mangá de mistério, aqui a coisa complicou um pouco justamente porque ele abre para uma série de questionamentos que não são esclarecidos ao final.

Coisinhas bestas, sabe? Por que a Nijimura criou aquele híbrido de tangerina e limão no solo das paredes oculares, sendo que isso é efeito da variação da Rokakaka? De onde porras o botânico da família Higashikata, o Rai Mamezuku, aprendeu o Spin? Qual é a do monólogo do Tsurugi — enquanto ele empacota o cadáver do Norisuke — sobre Stands que mudam e que é inconsistente com os acontecimentos posteriores (aliás, a situação toda é inconsistente)?

São coisas que seriam resolvidas em diálogos bestas que ocupariam, no máximo, umas duas linhas e não machucaria ninguém. E eu nem falei de coisas menores e bestas, tipo a perna da Daiya explodindo em sua primeira aparição para logo depois fingir que nada aconteceu, ou aquelas mordidas que teoricamente estão relacionadas à concessão das Stands aos seus usuários, mesmo que a Yasuho posteriormente já tenha exibido a Paisley Park em flashbacks anteriores a isso. Ah é, não posso deixar de citar o bebê das joias citado jornal (capítulo 22), e do homem do flashback (capítulo 2, embora nesse caso eu acredito que seja só o Kira com uma aparência prototípica), mas falar desses aí é chover no molhado.

É mistério demais, bastante inconsistência e pouca explicação, e olha que eu sou crítico ferrenho do didatismo que é cada vez mais presente hoje na ficção, em que tudo precisa ser explicado passo a passo para que a audiência cada vez mais desligada e de baixa capacidade cognitiva consiga entender. Só que não, né? O Araki nunca esquece, é um gênio perfeito que escreve histórias sem erros e sem buracos.

É aí que eu questiono o último capítulo. Os dois últimos, na verdade, uma vez que eles tomaram um tempão em um Flashback que não serve para nada além de fanservice barato visando gente que prefere ficar olhando para o que já passou na saga (cavocando referências a partes anteriores) em vez de, sei lá, ver a trama andar com acontecimentos novos, pertinentes e, a essa altura do campeonato, minimamente conclusivos. O incidente Radio Gaga foi para mostrar que o tal do Tohru sempre esteve de olho em Morioh e nos Higashikata? Que pena, está perdendo páginas para explicar novamente algo que já foi constatado umas duas ou três vezes antes.

Não é como se o Araki já não tivesse realizado a façanha de empacotar uma narrativa em dois capítulos anteriormente. O próprio Steel Ball Run foi assim e é tranquilamente o seu auge no quesito storytelling ao ponto de as qualidades suprimirem por completo todos os defeitos pontuais que a parte 7 ostenta. Não tem problema em trazer um final trágico em que a Holly não se recupera de sua doença e que Josuke percebe que infelizmente não irá conseguir reaver suas memórias simplesmente porque elas não existem pois ele é um indivíduo diferente daqueles que o compuseram. O problema é a maneira como isso é feito: literalmente em uma conversa casual de estacionamento. Não existe uma escalada evolutiva.

É amargo ver a Yasuho escanteada e indo embora sozinha pela porta depois de tudo o que ela passou ao se envolver em nesse roteiro acerca da Rokakaka, os Homens-Rocha e os Higashikata. É triste ouvir que o Norisuke está bem, mas sem presenciarmos uma aparição final dele, que é tranquilamente um dos personagens mais interessantes da parte 8. Entendo que a choradeira do final devido às mortes do Jobim e da Kato (e que potencialmente traz um tom de drama que, para mim, conseguiu emular com algum sucesso o final da parte 6,) trazem um final triste de propósito, ainda que ambos os personagens não tenham gerado qualquer empatia para que ficássemos mal também. Foi tudo muito seco e anticlimático.

Isso é prejudicial para a última impressão que o leitor tem de JoJolion. Aí eu questiono: a tal JoJolands, vai ser mesmo continuação direta de JoJolion? Eu vejo gente falando como se fosse confirmado e aí eu assumo que não cavoquei o suficiente em alguma fonte fidedigna que confirmasse a informação até aqui. Se esse for o caso, eu julgo tanto como erro quanto como decepção, dado que a graça de JoJo é a maneira como todas as partes contam histórias suficientemente contidas entre si, sem a necessidade de leituras prévias para seu entendimento, embora a compreensão ampla torne a experiência bem mais completa. Caso a parte 9 seja confirmada desse jeito, parabéns: perde-se um dos charmes de JoJo e cria uma expectativa falsa para um fim falso, igual Gintama. Se JoJolands for original, outra cagada, visto que a condução em amplo espectro de JoJolion é claramente um erro, a conclusão seria definitiva e continuaria deixando a desejar.

Em ambos os casos, o que foi digerido até aqui é um final feito às pressas que parece ter sido obra de pressão editorial para que JoJolion se encerrasse de uma vez do jeito que está. Como se o Araki quisesse continuar essa bodega para sempre, dando prosseguimento a esses personagens, mas a Shueisha falou “não, termina essa merda porque já tem dez anos que você não vai a lugar algum com isso”, e aí vai seguir com JoJoLands com os mesmos personagens só para conseguir dar continuidade.

Aliás, outra evidência que corrobora a percepção a respeito de um suposto envolvimento editorial, a meu ver, vem do fato de que a nona parte não tem nenhuma data sugerida até o momento. JoJolion começou imediatamente no mês seguinte ao final de Steel Ball Run e, de acordo com uma tabela de hiatos do Araki, a única ocasião em que ele tirou uma pausa (e bem longa, por sinal), foi entre Vento Aureo e Stone Ocean — que, à época, era justamente enviesada para ser a última. Houve um momento sem capítulos antes da parte 7, mas naquele momento Steel Ball Run se tratava de uma série nova sem qualquer ligação com o universo de JoJo, antes de meterem um retcon na coisa para dizer que é, provavelmente para ver se alavancava a popularidade (marketing, baby).

Eu já ia encerrar, aí lembrei que tem a questão da arte para falar, né? Bom, não consegui enxergar uma evolução visível e gritante do começo para o final, embora sejam notáveis algumas mudanças pontuais nos designs dos personagens, especialmente se eles são introduzidos superficialmente em um capítulo para serem melhor aprofundados nos seguintes, algo que, a meu ver, é normal e bastante compreensível. Nota-se também uma diferença clara entre os quadros em que os personagens são o foco da ação, rebuscados, dos outros em que as coisas simplesmente acontecem e eles recebem menos detalhes. Isso chama bastante a atenção, principalmente no começo, mas depois a gente tira de letra.

O que eu quero pontuar, contudo, é que o Araki em JoJolion me lembra bastante a escrita do John Byrne em quadrinhos nos anos 80, que parecia que escrevia o gibi com uma mão e a outra estava segurando o próprio membro enquanto descascava a mandioca, uma vez que alterna umas putarias — no sentido pornográfico da palavra, exageradas e fora da mão, até se comparado com as partes anteriores —, com demais momentos filosóficos, especialmente a respeito do que é e o que define a identidade de um indivíduo.

Claro que Jojo sempre teve uns fanservices aleatórios e pontuais, tipo a Lisa Lisa tomando banho, a Mariah guardando parafuso no busto, a Scarlet Valentine tentando tesourar com a Lucy, e quase todo Stone Ocean (ok, esse último foi só piada, ela é mais do que isso). No entanto, aqui a gente desce um nível no iceberg e encontra certas paradas deveras esquisitas, como o Jobim de bauduco com um nariz-prótese da Mitsuba porque ele lembra o chifre um besouro-hércules, o que lhe dá tesão; ou quando o Tohru comenta para a Yasuho como ela ficava doidinha quando ele brincava de DJ com ela.

Agora, um aspecto negativo é o design das Stands. Algumas delas são apenas uns bichos amorfos e sem graça, feito a Ozon Baby, a Doggy Style e a Blue Hawaii. Outras, as humanoides, geralmente seguem um estilo repetitivo de boneco articulado de braço fino, como a própria Soft and Wet ou a Speed King. Em compensação, as que seguem um estilo tradicional já são agradáveis, a exemplo da Paisley Park, King Nothing e a Love, Love Deluxe (que também trazem uma aparência de boneco, mas bem encorpadas). A Nut King Call é igualmente legalzinha, mesmo que ela siga o estilo do braço articulado.

Creio que o empecilho central com a maioria dessas Stands pouco marcantes é o fato de elas perderem força porque a própria luta contra elas é bastante sem graça. O Araki repetiu muito a estrutura de batalha por perseguição (ao estilo Highway Star, da parte 4) ao longo da parte 8 (vide Born this Way e Blue Hawaii). Houve muita Stand automática, o que tira bastante dinâmica do combate porque os próprios usuários tinham pouco papel ativo sobre elas, resultando em pouca margem para interação e participação prática.

Enfim, longe de mim achar que JoJolion é ruim. Pelo contrário, acho-a mediana e com seus momentos, mas ela é deveras frustrante e pouco inspirada. A escrita do Araki brilha em vários pontos da narrativa, principalmente quando ele lembra (OLHA SÓ) e justifica elementos que pareciam estar escapando, como foi quando ele meteu um justificável e compreensível retcon ao explicar que as Paredes Oculares nada mais eram do que o fenômeno da Palma do Diabo da parte 7. E ao contrário do que todo mundo fala, o poder do Wonder of U, de alterar todas as probabilidades do mundo a ponto de fazer com que todas as piores possíveis ocorram contra o alvo escolhido, é muito foda.

O revés é que muitas dessas qualidades são ofuscadas pelos defeitos e pelas inconsistências, além do próprio ritmo deficiente da série em si. Existem duas situações, aliás: acompanhar JoJolion por dez anos torna o problema do ritmo evidente, uma vez que você tem que esperar mês a mês por capítulos que potencialmente não avançam em nada na trama e, em retrospecto, você percebe que eles não levaram a lugar nenhum, ao contrário de como eles mesmos sugeriram logo quando saíram. A segunda situação é ler de uma vez só, quando a maioria dos buracos sem explicação ficam mais óbvios porque estão frescos na memória.

Eu acho errado e superficial julgar uma obra apenas por seu final, visto que antes de chegar ao clímax houve toda uma jornada de construção que pode ser muito interessante. Entretanto, é notável que um final capenga prejudica em demasia a percepção geral de uma obra porque é ele a última impressão que a audiência crava em sua memória. E aí temos um JoJolion, que alterna entre momentos dignos do nome que carrega e momentos de extremo tédio que não levam a lugar algum.

O fã de Jojo que gostou do final de JoJolion do jeito que foi, sem fazer ressalvas, é um merda. JoJo, ao contrário do que essa galera pensa, não é sobre referências, mas sobre uma celebração da humanidade e dos relacionamentos humanos. E, convenhamos, ficar fazendo remix de si próprio desse jeito, reutilizando tanta coisa, é sem graça e mostra pobreza criativa, algo que você realmente não esperaria do Araki. Steel Ball Run foi incrível porque partiu de uma ambientação relativamente familiar (parte 1) para fazer algo novo, original e único. JoJolion, por sua vez, se perde na própria ideia e os fãs não colaboram porque querem forçar equivalências às partes prévias em vez de encarar a parte 8 como uma peça singular e única, o ideal. Isso fica claro ao notarmos a euforia que houve com o Joseph desse universo trazendo o Hermit Purple à tona e referenciando as boleadeiras de Battle Tendency, ignorando que o flashback em si foi desnecessário para a trama naquele momento — ao contrário do Sleeping Slaves de Vento Aureo, se traçarmos um paralelo prático.

Ressaltando, eu pego no pé justamente porque eu me importo demais com a série e não consigo engoli-la tão sem rumo desse jeito. JoJolion deixa um gosto amargo na boca pela decepção, uma vez que era um mangá arrastado que passou por uma mudança brusca na metade para se ajeitar e até empolgar na reta final só para trazer uma conclusão troncha que provavelmente veio com ordem editorial. Nesse aspecto, digo sem escrúpulos que ele é perfeitamente comparável a Bleach e complemento: ao menos em Bleach a gente não esperava mais porra nenhuma do Kubo, ao contrário do Araki.


Informações

  • Autor: Hirohiko Araki
  • Ano: 2011-2021
  • Volumes: 27
  • Capítulos: 110
  • Editora: Shueisha
  • Publicação: Ultra Jump

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