O Mecha é a Massagem

Apesar de não ser muito chegado especificamente em Gundam, que é a principal religião desse gênero, eu realmente me amarro em robôs gigantes. Respeito e admiro demais também o conhecimento dos fãs de Gundam sobre a franquia, é realmente um universo quase diferente de todo o meio Otaku em relação aos quais eles são normalmente atribuídos.

Pois bem, tendo isso em vista, eu tenho uma visão que considero bastante particular em relação ao gênero Mecha. Obviamente, o nome do gênero vem de uma contração de mechanical e trabalha a temática justamente de máquinas, muitas vezes controladas por humanos. Enquanto a concepção básica se aplica mais a robôs, o termo original no japonês se refere basicamente a qualquer máquina. Trata-se, obviamente, de uma consequência da relação que o Japão tem com a tecnologia e com vários conceitos da robótica, algo que vem desde tempos antes da segunda guerra mundial, por exemplo.

Dito isso, um dos verdadeiros divisores de água nesse aspecto foi o surgimento do Astro Boy, cuja série original é amplamente considerada o ponto zero da animação japonesa como uma indústria.  Seu lançamento em 1963 coincidiu com os Jogos Olímpicos que foram realizados no ano seguinte, em 1964. Tendo em vista que as Olimpíadas têm como um de seus motes a superação dos limites humanos através da quebra dos recordes, ambas as temáticas conseguiram consolidar um belo casamento.

Ressalta-se que Tóquio foi completamente modernizada no intuito de receber o evento, quando a ideia de o Japão ser um país altamente tecnológico finalmente se consagrou. Essa revolução eletrônica impactou diretamente a vida de seus cidadãos e na maneira como eles enxergam o mundo, o que corroborou com a consolidação do pensamento de que os avanços tecnológicos são a principal muleta para o próximo passo da evolução humana.

Tendo isso tudo em vista, eu costumo dizer que o gênero Mecha não é (apenas) sobre robôs (gigantes) ou outras máquinas, mas sobre as relações humanas em que tais autômatos — a tecnologia, no caso — assumem o papel de fio condutor para que elas se desenvolvam. Ou seja, resumidamente, animes de Mecha são sobre as pessoas. Perceba: embora as principais séries clássicas do gênero foquem-se bastante na questão do robozão gigante, elas são basicamente para que os pilotos em si cresçam e se desenvolvam como indivíduos. Isso rola desde verdadeiros clássicos oldschool como Mazinger Z, Patlabor, Applessed e Gunbuster a até iterações mais modernas do estilo, como Tengen Toppa Gurrenn Lagann, Sidonia no Kishi, Eureka Seven , incluindo a abominação que é Darling in the Franxx (ou não, como explicarei a seguir).

Essa correlação do ser humano com o robô vem desde os estudos da cibernética, que trabalha a integração entre o homem e a máquina no sentido de atribuir capacidades ao ser humano em que ele teoricamente seria incapaz. Norbert Wiener[1], por exemplo, é um matemático pioneiro dos estudos dessa área e propôs um teorema baseado em retroalimentação no sentido em que o homem usa a máquina e a máquina irá respondê-lo no sentido de corrigir suas deficiências originais.

Pense na função dos óculos como correção de uma visão deficiente e expanda essa ideia para um grande telescópio capaz de prever e corrigir a trajetória de um projétil em uma sniper, analogamente. Isso, no caso, não tiraria o ser humano do controle, uma vez que seria ele o responsável por apertar o gatilho. Isso claramente se aplica ao universo dos mechas em um sentido em que é muito comum o enredo que coloca o robô perdendo o controle por qualquer que seja o motivo (de uma invasão hacker a um vírus tomando conta do sistema), trazendo o debate ao nível filosófico de nós, humanos, sermos reféns da tecnologia ou se temos controle sobre ela.

Ademais, os robôs dos Mechas podem ser ainda extensões do homem, aplicando-se teorias do estudo das mediações de Marshal McLuhan em que, para ele, o meio é a mensagem[2]. Explica-se: tudo pode ser um meio. A luz elétrica, como modelo disso, é um meio muito vazio, mas essencial para que consigamos enxergar tudo com clareza, uma vastidão de informação, de ideias diferentes que tal meio propiciou sua devida percepção. O meio determina o formato e a intensidade que o conteúdo que ele próprio quer passar. Mais do que isso, ele enxerga esses mesmos meios — uma palavra cuja definição e aplicação é propositalmente genérica — como extensões do homem.


Ratatouille é um anime de Mecha? Afinal, não apenas o Linguini é uma extensão do Remy, mas também é uma história sobre a relação conflituosa do ratinho para com seus familiares, seus iguais.

O domínio do conhecimento técnico, vulgo tecnologia, é o que faz o ser humano evoluir como tal. Para ele, a roda é a extensão do pé. As roupas são uma extensão da nossa pele[3]. A estrada de ferro, especificamente, não introduziu uma nova forma de transporte, por exemplo, mas estreitou e modificou as relações humanas e culturais. Ele também discorre sobre o fenômeno específico da automação:

as consequências sociais e pessoais de qualquer meio — ou seja, de qualquer uma das extensões de nós mesmos — constituem o resultado do novo estalão introduzido em nossas vidas por uma nova tecnologia ou extensão de nós mesmos. Assim, com a automação, os novos padrões da associação humana tendem a eliminar empregos, não há dúvida. Trata-se de um resultado negativo. Do lado positivo, a automação cria papéis que as pessoas devem desempenhar, em seu trabalho ou em suas relações com os outros, com aquele profundo sentido de participação que a tecnologia mecânica que a precedeu havia destruído. Muita gente estaria inclinada a dizer que não era a máquina, mas o que se fez com ela, que constitui de fato o seu significado ou mensagem. Em termos da mudança que a máquina introduziu em nossas relações com outros e conosco mesmos, pouco importava que ela produzisse flocos de milho ou Cadillacs [4].

Das colocações de McLuhan, muito mais interessante do que as considerações sobre o como a automação é um meio que mudou as relações humanas, é quando ele propõe que os circuitos elétricos são uma extensão do sistema neural do ser humano[5]. A existência de um piloto dentro de um mecha trata-se de uma alegoria prática e estupidamente visual, ilustrativa, dessa ideia. Mazinger, por exemplo, foi concebido por Go Nagai enquanto estava preso no engarrafamento e decidiu cortar justamente a bola que McLuhan havia levantado: os carros são como lanchas máquinas controladas pelos seus motoristas como extensões de si próprios — e por que um robô não poderia ser controlado como um carro?

Outra série que utiliza os Mechas apenas para ilustrar a relação (humana) entre os pilotos é VanDread. Apesar de não ser um mecha pura-raça, digamos assim, por ser uma espécie de híbrido de Space Opera (em que o espaço assume a função de fio condutor) — e embora seja bastante conhecida só por conta dos elementos ecchi —, o que ela fez com um incrível brilhantismo foi trazer o debate da guerra do sexos e funções de gênero enquanto brinca de robô gigante.

Mais uma que trabalhou a temática com bastante propriedade — mesmo que tenha pecado e recaído na irritante e batida estrutura cíclica do Trigger — é SSSS.Gridman, que utiliza não só o robô como uma extensão do homem, mas coloca a função da digitalização das ideias humanas, um elemento muito correlacionado com a existência da internet, na jogada. O conflito dos Kaijuus contra o Robozão em SSSS.Gridman é uma extensão de como seus controladores (Yuta Hibiki, o protagonista, e a vilãzinha waifu Akane Shinjou) lidam, cada um à sua maneira antagônica, com a socialização com seus iguais, outros seres humanos.

Gente, por favor. Essa propaganda sobre desemprego usa um robô com marcas na cara que representam lágrimas e servem justamente para ilustrar o árduo combate do ser humano contra o desemprego e a dificuldade de recolocação vocacional. É uma batalha puramente humana, mas foi representada alegoricamente por um Mecha, pelo amor de deus.


Atenção à forma como as linhas do rosto imitam lágrimas de frustração.

Aí é quando eu bato demais na ideia de que Neon Genesis Evangelion não é uma desconstrução do gênero Mecha como tantos dizem. Também não é um não-mecha pelo simples motivo de os bichões serem existências orgânicas armaduradas. Evangelion é, na verdade, a evolução desse gênero, o próximo passo de sua existência no sentido de encarar que os EVAs, independentemente do fato de serem orgânicos, só existem como são graças ao domínio tecnológico do ser humano.

O próprio Campo AT é a extensão muito clara do potencial psicológico dos pilotos. Evangelion utiliza figuras de aparência robótica com o simples intuito de abordar temas que envolvem a psiquê do ser humano. As placas de contenção dos EVAs — que a franquia deixa muito claro que são tão humanos quanto os lilim — são justamente a evocação da ideia do cibernético, a de aprimoração orgânica através da tecnologia.

Mais do que isso, ainda tem como o projeto de instrumentalização humana da SEELE em End of Evangelion — e no final da série de TV por que não? — representou claramente o conceito de aldeia global trazida por McLuhan, em que os avanços tecnológicos criariam verdadeiras redes neurais de pensamentos compartilhados e sugeriu-se que esse seria especificamente o estado final da humanidade. Entretanto, a rejeição da instrumentalidade por Shinji, que poderia teoricamente minar essa suposição do último estágio do homo sapiens, traz teorias de transhumanismo e da superação do niilismo individual através da sua vontade de potência atrelada ao conceito do Übermensch, transformando-se na figura do além-homem como descrita por Friedrich Nietzsche[6]. São ideias que apesar de contraditórias dentro do próprio lore, não se negam dentro da temática Mecha como aqui descrita.

Aliás, se provavelmente tem alguma produção que serve como uma desconstrução do gênero Mecha, sob tal ponto de vista (e contrariando o que falei mais cedo), é justamente Darling in the FRANXX, no sentido de utilizar robôs gigantes como extensões dos dramas e conflitos enfrentados pelos personagens, mas que, na realidade, ele renega toda a questão tecnológica envolvida, no estrito sentido de que elas afetam, de fato, as relações sociais, só que, em contrapartida a outros produtos de gênero similar, tais avanços são prejudiciais para a existência da humanidade em si, tal como Admirável Mundo Novo — basta lembrar como as crianças pilotas dos FRANXX terminaram a série basicamente como agricultores amish de subsistência como se isso fosse algo incrível.

Sei lá. Talvez eu tenha divagado demais. Afinal, todo mundo sabe que esses desenhos de robozinho são feitos e refeitos com o único intuito de vender bonecro.

[1] WIENER, N. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos. São Paulo: Cultrix, 1970.
[2][4] MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
[3][5] MCLUHAN, Marshall; FIORE, Quentin. The Medium is the Massage: an inventory of effects. Nova Iorque: Bantam Books, 1967.
[6] NIETZSCHE, Friderich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

 

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