Análise: Gravity Rush 2

Só para constar, eu comentei bastante sobre o jogo aí, nem me preocupei com a parada dos spoilers. Se for comentar, LEIA o texto primeiro antes de falar qualquer asneira que o texto já tenha respondido por si só.

Gravity Rush 2 é conhecido na esfera gamer brasileira com algum deboche por se tratar de um título cuja versão física chegou a ficar surrealmente barata no nosso mercado nacional. De fato, eu comprei minha cópia a R$9,90 numa Lojas Americanas em um momento em que nem sequer tinha um PlayStation 4, embora já houvessem planos. Dessa forma, assim que finalmente adquiri o console da Sony que tanto debochei ao longo de sua vida útil, essa aventura se tornou um dos primeiros nomes que me arrisquei a jogar — afinal, era o que eu já tinha.

Logo de cara, eu me encontrei bastante surpreso por me deparar com um jogo muito bem produzido — principalmente por se tratar de um produto comprado com o troco de pão. Mais impressionado fiquei quando vi que foi produzido pela Sony Interactive Entertainment, ou seja, um first party. Bom, logo na introdução somos apresentados a Kat, a Rainha da Gravidade que se perdeu em alguma tempestade gravitacional cósmica que a transportou — ao lado de seu colega Syd — para um ambiente hostil e desconhecido a ela.

O prólogo e o primeiro capítulo da trama envolvem Kat e Syd se relacionando com os habitantes desse lugar-nenhum onde ela se encontra, uma espécie de assentamento de palafitas flutuantes chamada Banga. Na prática, eles acabam se juntando a Cecie, outra garota que chegou até lá sob as mesmas circunstâncias misteriosas (isso é importante lá para frente).

Todo o processo introdutório se dá nessa comunidade, onde aprendemos não só as mecânicas, mas um pouco mais sobre o funcionamento desse universo. O 2 no nome não está lá à toa, então muitas das explicações parecem meio vazias justamente por provavelmente partirem do pressuposto de que todos os jogadores se tiveram contato pelo primeiro título. Contudo, ainda foi possível pegar vários dos elementos-chave básicos daquele mundo, especialmente na forma como ele se relaciona com a questão da gravidade como diferencial para a marca.

Dito isso, o mapa disponível para exploração se abre quando Banga decide que precisa partir atrás de suprimentos. É quando nós vislumbramos, pela primeira vez, a chamada Jirga Para Lhao, uma cuja desigualdade social característica é representada fisicamente de acordo com a posição relativa das próprias ilhas flutuantes. Lei Havina, por exemplo, é o arquipélago flutuante mais alto, onde mora a classe burguesia, enquanto Lei Elgona é a comunidade de favelas que flutua nos níveis baixos. É nesse trecho do jogo que a história começa a andar de verdade e reencontramos Raven, a gótica trevosa que é a melhor amiga de Kat — que aqui sofreu lavagem cerebral — e começamos a nos meter em uma série de sidequests bastante interessantes que nos faz entender um pouco melhor sobre o cotidiano e os anseios dos habitantes daquele local.

O segundo capítulo se estende nesse debate social até o aparecimento de um puta monstrengo enorme que aparece e destrói Lei Havina— sim, o nível elevado onde moram os ricaços burgueses safados, o que me fez questionar o motivo de realmente estarmos tentando acabar com o chefão, mas deixemos isso para outra hora. A entidade provoca uma nova tempestade gravitacional, que transporta Kat para Hekseville, outra cidade que logo deduzi se tratar do cenário do primeiro Gravity Rush e do lar original da protagonista.

O que muito me chamou atenção nesse terceiro capítulo é que ele dá início, praticamente, a uma outra história quase que completamente não relacionada a qualquer coisa dos anteriores. Eu digo quase porque é aqui que descobrimos que Kat, Raven e Syd foram parar lá para os lados de Jirga Para Lhao por conta dos desdobramentos de um caso misterioso que envolve órfãos sequestrados — e que, por sua vez, se relaciona não apenas ao primeiro jogo, mas também a uma prequel animada disponível no YouTube.

Apesar de gostar muito dos cenários de Jirga Para Lhao — afinal, a concepção do seu design se utilizou de uma filosofia bem mais elaborada e complexa do que a de Hekseville, cuja aparição original foi projetada para o menos potente PlayStation VitAUHAUAHAUHAUAH — é notável como a narrativa dessa nova etapa é muito mais cativante em seus mistérios e reviravoltas.

Digo, enquanto no primeiro a gente se metia na briga de classes — o que é sempre correto abordar, desde que estejamos do lado do proletariado oprimido — o segundo começa a trabalhar um roteiro que compreende desmascarar uma falsa heroína que tomou conta do local durante a ausência de Kat e suprimir as ações do prefeito doido, o Doutor Brahman, que era o responsável pelo incidente grou a tempestade gravitacional que expurgou a loirinha de Hekseville.

O objetivo final do antagonista era controlar o fluxo do tempo no intuito de impedir que a doença de sua própria filha, que foi colocada em um estado de animação suspensa, se alastre. Tendo isso em vista, ele começou a sequestrar crianças e realizar experimentos com elas. Duas delas são justamente as irmãs Kali e Cecie (cujo nome verdadeiro é Durga). Graças às experiências que ele conduziu, ambas desenvolveram os poderes gravitacionais. Cecie se perdeu em alguma tempestade gravitacional, Kali, por sua vez, se tornou a nova “heroína” no lugar da Kat. Nota-se que o entendimento de que a força da gravidade se relaciona com a passagem do tempo é importante para compreender também alguns aspectos e explicações sobre o mundo de Gravity Rush, especialmente no quarto e último capítulo da aventura.

Esse segmento final explora sobre o passado de Kat — e é o problema central muitas vezes apontado por aqueles que jogaram o título. Visando uma experiência de teor narrativo, o que Gravity Rush 2 faz é basicamente mesclar trechos maçantes com outras cujo entendimento se dá de maneira bem mais interpretativa, quase que no surrealismo. Por exemplo, para demonstrar o quanto a protagonista ficava entediada ao ficar presa dentro da fortaleza, a jogabilidade se estrutura em atividades repetitivas e igualmente enfadonhas, tentando provocar no jogador exatamente a mesma sensação. Essas sequências chatonas se alternam a outras de teor onírico que se desenrolam dentro do subconsciente da heroína e tentam brincar um pouco com o jeito absurda que as maquinações de nossas mentes processam os acontecimentos pelos quais passamos.

Embora eu consiga entender e ver algum valor nessa tentativa de storytelling interativo (deboche explícito aqui pela utilização do itálico), isso acaba sendo mais decepcionante e cansativo do que realmente curioso, principalmente se estivermos levando em conta um público próximo da média em relação aos seus gostos comuns — em termos simples, estou basicamente falando que essa percepção de projeção desse sentimento não funciona com normie.

Um dos charmes de Gravity Rush é que todos os diálogos se dão através de uma HQ — e a tradução em português é gostosinha.

Isso sem falar de como os acontecimentos finais, como um todo, começam a se encavalar e a impressão é que a gente perdeu alguma coisa da história que deveria estar entre uma e outra. Entretanto, o rápido epílogo protagonizado pela Raven, o finalzinho em si, acabou compensando de pontualmente, trazendo um sentimento de satisfação, apesar de a sequência final contra o último chefão (o do quarto capítulo) ter sido uma bagunça que só.

Digo, essa provação compensa narrativamente pela sua existência convincente como uma força ancestral de escala divina que acordou depois da derrota de outra força ancestral de escala divina. A batalha final, contudo, especialmente em termos de gameplay, é bem pouco inspirada por repetir, basicamente, o mesmo processo de outros chefes gigantes similares. Ele não é difícil na prática, o que dificulta o convencimento, aos olhos do jogador, de que a Kat realiza um esforço colossal para selá-lo novamente. Sabe quando você derrota o boss com facilidade, enquanto a cutscene, em oposição, retrata o protagonista todo detonado? Então, é exatamente o que acontece: uma quebra de imersão. Isoladamente, as cinemáticas são lindas, só que não combinam com o nível de desafio.

Falando em beleza, ô joguinho bonito, hein? Ele não é impecável a nível técnico, mas é notável como todas as escolhas artísticas em relação ao aspecto estético — em cel-shaded — conseguem nos fazer relevar as suas poucas deficiências. A construção visual do universo como um todo é bastante agradável, remetendo à famigerada atmosfera do estúdio Ghibli — e não, ao contrário do que eu disse na minha análise sobre Eizouken, não estou debochando dessa vez. Sabe por quê? Porque tudo flui tão naturalmente que ele não passa aquela sensação de emulação fajuta tão presente em uma caralhada de obras, desde Ni no Kuni a qualquer outra produção indie medíocre, à Forgotton Anne, ou ainda fora da esfera dos games, como Made in Abyss.

Nisso, um dos principais méritos está em como o mundo de Gravity Rush 2 está vivo. Não só no comportamento e quantidade dos NPCs enquanto eles vagam pelos cenários apenas para fazer volume, mas pela quantidade de objetos interativos que o mundo aberto proporciona — algo que é estritamente ligado ao núcleo de qualquer jogo de videogame: a jogabilidade.

A mecânica central de gameplay diz respeito a como a Kat manipula a gravidade. Isso vai desde a suspensão desse fenômeno físico em elementos do cenário (e disparando-os como projéteis) a até mesmo invertendo-a por completo, mudando o seu eixo e permitindo à protagonista — e, por extensão, o jogador — a “cair” para qualquer direção que seja, controlando a direção à própria maneira. Outros poderes derivados desse domínio gravitacional estão os chutes direcionados e a capacidade de “escorregar” pelas superfícies.

Ao progredir na campanha, as habilidades de Kat vão ganhando diversidade ao liberar novos estilos. O estilo da Lua reduz o peso da moça e faz com que a ela pareça estar se movimentando no satélite natural que deu o nome ao poder em questão, permitindo pulos mais altos. O estilo Júpiter, por sua vez, faz o contrário aumenta o seu peso, algo que influencia no impacto dos golpes e aterrissagens.

Essas técnicas bem específicas servem para combater os inimigos da mesma forma que são úteis ajudar os cidadãos em seu cotidiano nas quests que eles propõem. Tais missões paralelas são interessantes tanto do ponto de vista de de jogabilidade — já que elas variam bastante nas atividades a serem realizadas, indo desde o stealth, de seguir um indivíduo por algum motivo, a utilizar os disparos de gravidade para entregar jornais — quanto do ponto de vista narrativo, pois ajudam a entender cada vez mais o universo à nossa volta.

Essas pequenas peças narrativas nos ajudam a conhecer não só os vários estilos de vida, pontos de vista e anseios dos habitantes de Jirga Para Lhao e Hekseville, mas também a entender a personalidade de Kat. A protagonista de Gravity Rush é um verdadeiro amorzinho. Ela é um exemplo muito claro de personagem multidimensional porque em nenhum momento ela se mostra como uma epítome de alguma característica, representando uma única ideia.

Ao mesmo tempo em que Kat pode ser alegre, divertida, ingênua e atenciosa, ela pode ser rancorosa, ácida, desconfiada e até sensual — sem, em nenhum momento, ser sexualizada, algo realmente notável e importante para a indústria, especialmente nos dias de hoje —, tornando-a uma personagem complexa em sua composição, embora ainda fácil de compreendê-la como agente narrativo. A garota tem suas qualidades e defeitos como indivídua, e é por isso que ela se mostra tão amável. Esses atributos não agem de maneira conflitante, e sim complementar.

Ao experimentar Gravity Rush 2 absolutamente às cegas, a única influência externa que acabou tendo impacto na minha pré-concepção sobre o título foi seu preço estranhamente barato. Hoje, eu afirmo com toda a certeza que, considerando o que foi pago na mídia física, trata-se tranquilamente de uma das minhas aquisições que mais me compensaram a nível de custo-benefício, ao ponto dessa delícia se tornar a minha IP first party favorita da Sony. Caindo no chavão, é a questão de não julgar um livro pela capa — ou, no caso específico, pelo seu preço.

E olha que eu nem falei dos extras. Além de um DLC gratuito e protagonizado pela Raven, também é muito gostoso ficar passeando à toa entre os dois principais cenários do game. Vários dos segredos espalhados pelo mundo aberto foram bem criativos, uma vez que, para serem encontrados, eles exigem bastante da nossa própria criatividade na forma como utilizamos os poderes gravitacionais da heroína em prol de diferentes pontos de vista. Outra possibilidade é aproveitar os belos panoramas e brincar de fotógrafo com um modo próprio presente no jogo. Por fim, um último aspecto presente a ser lembrado é a personalização do vestuário de Kat, que pode adquirir vários trajes diferentes ao longo da campanha.

Infelizmente, nem todas essas roupas estão disponíveis porque algumas delas dependem do modo online para serem obtidas — e a Sony desativou o suporte ao seu título First Party com um ano de produto no mercado, apenas. Isso não impede que a platina seja alcançada na hora de coletar os troféus, só que acaba chateando um pouco, pois a presença dos slots não-liberados no menu das vestimentas fica nos lembrando desse fato a todo momento. Outra dura perda com esse desligamento precoce dos servidores foi o sistema interno de compartilhamento das fotos tiradas. Parece algo bobo, mas Gravity Rush 2 apresenta um mundo tão colorido, detalhado, vibrante e surpreendentemente belo que o jogador acaba sentindo falta de dividir suas obras com o resto da comunidade.

Sim, uma das vestimentas disponíveis para Kat é a roupa da 2B — e, ainda bem, não dependemos do servidor (que está desligado) para obtê-la.

No fim das contas, é isso o que chama a atenção: trata-se de uma produção com personalidade. Ela não é pesada, sombria ou metida a madura, ao contrário de outras marcas da casa, como o Bom da Guerra, The Last of Movies, Unchato ou as produções de nariz empinado do Team Ico. É uma IP muito simpática e acolhedora, com uma narrativa bastante leve e descontraída, que sabe alternar para alguns momentos mais densos de maneira pontual e que servem justamente para criar diversidade na experiência a partir desse contraste entre os tons. Ainda, ela não duvida das nossas capacidades cognitivas — a exemplo de Little Big Planet, que beira o infantiloide. Inclusive, arrisco dizer que, nessas particularidades, Gravity Rush lembra o estilo das propriedades intelectuais da Nintendo.

Sim, amigo. Eu torço de verdade para que a Kat se torne uma personagem convidada no Smash Bros., mesmo tendo completa noção das possibilidades inóspitas desse acontecimento se concretizar. Como adivinhou?

 

 


Informações

  • Produção: Sony Interactive Entertainment
  • Estúdio: SIE Japan Studio (Team Gravity)
  • Ano: 2017
  • Gênero: Aventura, Ação
  • Plataforma: PlayStation 4

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