Análise: Kaijuu no Kodomo

Só para constar, eu contei o filme praticamente inteiro aí. Se for comentar, LEIA o texto primeiro antes de falar qualquer asneira que o texto já tenha respondido por si só.

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, foi lançado em 1968 e logo tornou-se referência no cinema de ficção científica, sendo, até hoje, objeto de discussão de muitos cinéfilos e estudiosos do ramo. Dividido basicamente em três atos, ele conta primeiramente uma narrativa completamente não-verbal de um povo primata que se depara com um estranho monólito para, em seguida, narrar os problemas técnicos de um astronauta que lidou com um surto da HAL9000, a Inteligência Artificial de sua nave. No fim, o longa se encerra com o astronauta em questão encarando o próprio envelhecimento num misterioso quarto branco.

Muitos dos méritos de 2001 são visuais, que vão desde os homens-macaco da introdução às simulações de gravidade zero do astronauta no espaço, além da icônica sequência do Stargate, que é basicamente composta de quase cinco minutos de luzes coloridas piscando na tela.

Por sua vez, Kaijuu no Kodomo — traduzido como “Crianças Mamíferas Aquáticas”, mas que inglês ficou conhecido como Children of the Sea, Crianças do Mar — conta a história de uma garota chamada Ruka Azumi. Entrando na adolescência, ela se encontra sem ter o que fazer durante as suas férias de verão, uma vez que foi expulsa do time de handebol do qual fazia parte. Sem opções, decide ir ao aquário onde seu pai trabalha.

Em seu primeiro dia, enquanto passeia pelo local, ela conhece um menino chamado Umi, que tem um irmão chamado Sora. Esquisitos como são, eles foram criados por dugongos, um mamífero marinho parente dos peixes-bois. A jovem rapidamente se afeiçoa aos moleques, que vivem no aquário sob a supervisão de cientistas que debatem a respeito da utilidade deles. No dia seguinte, ela se encontra com Umi, que a convida para assistir a uma chuva de meteoros. De acordo com o garoto, os esteroides estavam, de propósito, chamando atenção — afinal, é por isso que eles brilhavam.

No terceiro dia, Ruka escuta pela primeira vez uma gravação de um canto de baleia e se sente compelida a, mais uma vez, vislumbrar o oceano. Agora, ela encontra Sora. Com a saúde fraca, ele escapou do hospital onde estava para ficar próximo ao mar. Eles se desentendem, mas acabam conversando um pouco sobre o canto da baleia que a menina escutou e como, aos ouvidos dela, o áudio se assemelhou a um cântico cerimonial.

Outro dia se passa (agora é o quarto) e a mocinha vai novamente ao aquário para ver seus amigos. O que acontece é que, eventualmente, a mãe dela aparece. Não querendo vê-la, o trio rouba um barco e foge. Enquanto se divertem mergulhando no oceano, as duas crianças do mar explicam que em breve haverá, de fato, um grande festival do qual eles farão parte — e que as baleias, na verdade, buscam um convidado para participar de tal celebração. Nisso, descobrimos que esse fenômeno é o motivo para os cientistas estarem interessados em estudar as duas crianças.

O quinto dia amanhece chovendo e, a caminho do aquário (ao menos é o que o padrão até aqui nos faz presumir), Ruka se depara com vários peixes mortos na praia e, entre eles, um Umi inconsciente depois de ter saído em busca de Sora. Após uma quase respiração boca a boca para fazê-lo voltar a respirar, o menino acorda e diz que sabe onde seu irmão está porque as ondas lhe contaram. Eles partem em uma busca que os leva a ilha secreta, que na verdade é onde os dois garotos foram encontrados quando mais jovens.

Com o céu se abrindo e a chuva cessando, o que rola é um acampamento em que o trio de protagonistas é monitorado por um biólogo marinho, habitante do local. Durante a noite, a Ruka acorda e auxilia Umi, que está queimando em febre por estar com a pele muito seca — é explicado que o moleque passou a vida toda na água e, por isso, precisa estar sempre úmido. Ela decide dar uma volta e se depara com Sora. Em determinado momento, o garoto a beija no intuito de fazê-la engolir um meteorito que ele havia encontrado no dia anterior. Sora, então, começa a caminhar em direção ao oceano até, eventualmente, sumir, alegando que sua hora havia chegado. No momento de sua aparente morte, a menina escuta novamente o canto da baleia, só que agora não se tratava de uma gravação.

No sexto dia, a perda do irmão afetou Umi, que parece ter desaprendido a falar. Enquanto os dois garotos remanescentes passeavam, eles escutam um chamado de uma baleira e pedem para uma senhora já conhecida do casal para levá-los ao mar aberto, onde ambos mergulham noite a dentro, quando são engolidos por uma baleia.

Amanhece o sétimo dia e Ruka surge caminhando em uma praia, onde encontra Umi desacordado. Uma onda repentina leva os dois e a garota se encontra em uma viagem pelas regiões abissais do oceano, quando finalmente se situa no ventre da baleia e é recepcionada por uma silhueta de Sora, que meio que desperta o meteorito dentro dela. A sombra explica que o fragmento de asteroide em questão carrega memórias e ele será, literalmente, o olho de uma tempestade.

O tal festival finalmente tem início. Com ele, veio uma sequência de apelo puramente visual com um toque de piscodelia em que a garota contempla a existência dela como indivíduo, a vastidão do universo e os seres vivos que nele se inserem. Ao final, Ruka se encontra submersa e vislumbra Umi ao longe, se desfazendo nas correntes marítimas. Encerrada a cerimônia, ela sobe à superfície e fica boiando, à deriva, até ser salva por seus seus pais, que estavam à sua procura.

A conclusão se dá com a protagonista contemplando o mar. Ah sim, o pós-créditos tem uma cena extra em que Ruka corta o cortão umbilical de seu irmão que acabara de nascer — no meio do filme, há o trecho identificável como o momento exato do vuco-vuco da concepção.

Analisando panoramicamente, Kaijuu no Kodomo é algo como um tratado visual que ilustra o caminho entre dois pontos. O primeiro deles é o “de onde viemos”, enquanto o segundo é o “para onde vamos”. Isso acontece exatamente da mesma forma em 2001: Uma Odisseia no Espaço. A obra do Kubrick utiliza essa ideia dentro de uma espécie de fractal — conceito que diz respeito a uma estrutura composta por outras estruturas idênticas, mas menores — e o aplica dentro dos dois estágios extremos da vida de um indivíduo: o nascimento e a morte.

É por esse motivo que a sequência psicodélica do longa dirigido por Ayumu Watanabe é análoga à supracitada sequência do Stargate. É possível apontar ambas como uma visualização do momento da concepção. Assim como a nave Discovery One encarando Júpiter é vista como um espermatozoide prestes a fecundar um óvulo, há um momento muito interessante durante o turbilhão de Kaijuu no Kodomo em que Umi desesperadamente tenta alcançar o meteorito, com Ruka, inicialmente, impedindo-o, o que leva a uma disputa entre os dois similarmente a espermatozoides competindo em uma corrida até o óvulo.

A dicotomia entre o “onde viemos” e o “para onde vamos” também é expressamente relacionada à dualidade dos garotos Umi e Sora, uma vez que seus nomes representam, respectivamente, mar e céu. Nós viemos de um deles e a fronteira final é o outro. Ainda, mesmo que entidades opostas, elas são interligadas e, se observados no horizonte, podem se mesclar em uma só visão.

O ritual ilustrado é uma celebração da existência como um todo. O meteorito veio do céu e se ligou com a terra e o mar, com a menina servindo de catalisadora. Com isso, a expansão contínua do universo se reflete na vastidão do próprio oceano. O mar é o passado e o espaço é o futuro. A vida surgiu no mar, enquanto o universo é um grande oceano não desbravado.

Na própria indústria de animes, é comum que Kaijuu no Kodomo acabe sendo comparado a títulos de mensagem e estética similar, como Akira. Embora pertinentes, há outra comparação plausível, na minha opinião, que tenta trazer um pouco desse conceito, mas de uma maneira absolutamente mais direta e menos alegórica. Refiro-me a Fullmetal Alchemist, especificamente em relação ao “um é tudo, tudo é um”.

É quando retomamos a definição de fractal, visto que todas as pequenas partículas trazem pequenos universos dentro de si. A questão tem a ver com a hereditariedade dos genes, que carregam informações de todos os nossos antepassados. Inclusive, define-se meme, como um gene da ideia que vai se disseminando, se expandindo, se alterando e evoluindo à medida que vai sendo passado para frente.  Kaijuu no Kodomo ilustra a noção de que somos compostos de pequenos microcosmos durante a desintegração de Umi em partículas com a forma de pequenas galáxias — de novo, é o mar tornando-se o céu, o espaço (e além).

Um adendo: Children of the Sea bebe da mitologia do festival Tanabata. Tomando parte durante o verão japonês, ele é uma celebração da história dos amantes Orihime e Hikoboshi. Apaixonados, os dois deixavam de cumprir suas tarefas diárias como tecelã e pastor, respectivamente, o que causou a fúria de Tentei, o Senhor Celestial, que os separou e isolou em cantos remotos e distantes da Via Láctea. Movido pelas súplicas de Orihime, que não queria viver longe de seu amado, Tentei concede a oportunidade de o casal se encontrar uma vez por ano, no sétimo dia do sétimo mês. A grosso modo, o ritual do qual Ruka participou não foi o encontro do céu (Sora) com o mar (Umi), após sete dias de preparação?

Pois bem, apesar de todas as comparações, é notável que Kaijuu no Kodomo é muito mais pé no chão (o que é uma ironia, considerando a temática oceânica do negócio) do que 2001. De um aspecto geral, o longa do Kubrick tem uma estrutura fragmentada e, para um espectador médio, fica um pouco complicado observar uma interligação clara entre seus atos, fazendo com que eles se assemelhem demais a sequências fechadas e independentes entre si.

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O desenvolvimento aqui já se apega ao tradicional esqueleto narrativo do monomito, a jornada do herói. Aliás, a utilização desse arquétipo decide utilizar a passagem que referencia o momento da separação definitiva do herói com o mundo comum — a metafórica “barriga da baleia” — de forma literal, uma vez que é onde Ruka literalmente se encontra em determinado ponto do filme. Discorrendo trechos da obra do próprio Campbell (páginas 77-78 na minha versão e-book sem vergonha):

A idéia de que a passagem do limiar mágico é uma passagem para uma esfera de renascimento é simbolizada na imagem mundial do útero, ou ventre da baleia. O herói, em lugar de conquistar ou aplacar a força do limiar, é jogado no desconhecido, dando a impressão de que morreu. Esse motivo popular enfatiza a lição de que a passagem do limiar constitui uma forma de auto-aniquilação. (…) Mas, neste caso, em lugar de passar para fora, para além dos limites do mundo visível, o herói vai para dentro, para nascer de novo. O desaparecimento corresponde à entrada do fiel no templo — onde ele será revivificado pela lembrança de quem e do que é, isto é, pó e cinzas, exceto se for imortal. O interior do templo, ou ventre da baleia, e a terra celeste, que se encontra além, acima e abaixo dos limites do mundo, são uma só e mesma coisa. (…) Ilustram o fato de o devoto, no momento de entrar num templo, passar por uma metamorfose. Sua natureza secular permanece lá fora; ele a deixa de lado, como a cobra deixa a pele. Uma vez no interior do templo, pode-se dizer que ele morreu para a temporalidade e retornou ao Útero do Mundo, Centro do Mundo, Paraíso Terrestre. Portanto, alegoricamente, a entrada num templo e o mergulho do herói pelas mandíbulas da baleia são aventuras idênticas; as duas denotam, em linguagem figurada, o ato de concentração e de renovação da vida.

Tendo Campbell explicado a situação toda melhor do que eu poderia, no final das contas, dá levar em conta que Ruka passa por uma experiência que a faz conhecer não apenas o espaço como um todo em sua existência física, mas o universo dela própria, representando seu amadurecimento. Da mesma forma que presenciou lapsos da gênese do macrocosmo em ampla escala, a heroína passou a ter maior consciência a respeito das próprias origens, de onde ela mesma veio, em microescala.

Olhando agora, enquanto o trecho em que Campbell cita a questão do pó e das cinzas tem proveniência bíblica — Gênesis 18:27 (“argumentou Abraão: ‘Eu me atrevo a falar ao meu Senhor, eu que sou poeira e cinza’”) e Eclesiastes 3:20 (“Tudo e todos se dirigem para o mesmo fim: tudo vem do pó e tudo retorna ao pó”) —, Kaijuu no Kodomo atualiza essa mesma visão sob um ponto de vista científico que considera a água e, por extensão, os oceanos, como a origem da vida. Um cruzamento similar pode ser feito quando o estudioso cita o Ventre da Baleia e a Terra Celeste como “uma só e mesma coisa”, algo que acontece no filme quando se esclarece a correlação entre Umi e Sora, mar e céu. São os tais “limites do mundo”, os dois extremos da existência.

Finalmente, ressalta-se que essa percepção aprofundada do roteiro não faria sentido nenhum se o apelo estético de Children of the Sea não fosse tão evidente como ele é. Apesar de muito se falar que a qualidade do enredo pesa mais do que a animação (mesmo que esses indivíduos não percam tempo nenhum em detonar anime em CG sem nem ao menos, sei lá, assistir ao negócio), uma boa qualidade de animação importa porque a excelência nesse critério também é um elemento que ajuda a compor a própria história, de fato. O aspecto visual tem suas qualidades narrativas próprias.

O que acontece, na verdade, é que é errado fomentar essa polarização quando, na verdade, a questão da animação está dentro da própria definição de storytelling. É por isso que já rola uma forte ressignificação de qualquer obra na simples transição do mangá para o anime. Um exemplo claro que utilizo sempre é JoJo, cujos originais sempre foram em preto e branco, sem qualquer referência cromática tida como oficial — até que veio o anime com cores recorrentes, causando outra percepção para um fã novato.

Dessa forma, o longa-metragem produzido pelo Studio 4 °C é um deleite visual. A sequência psicodélica do ritual no terceiro ato do filme adquire tons de Fantasia, produzido pela Disney em 1940 e que foi responsável pela ideia de unir música sinfônica clássica à segmentos animados. Ao mesmo tempo em que Kaijuu no Kodomo se utiliza de cores e efeitos obteníveis apenas com o auxílio de tecnologia digital, as formas e linhas trazem uma consistência muito próxima às das animações realizadas à mão, de maneira mais tradicional. É como se a própria qualidade técnica invocasse em seu próprio DNA o conceito do “de onde viemos a onde vamos” — lembra-se da própria animação contribuindo, ou melhor, compondo a mensagem transmitida? Então.

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Children of the Sea é gostoso de assistir. O enredo é ágil e imersivo. A simplicidade de seu argumento, se lido de forma bruta, não faz jus à profundidade narrativa alcançada pelo seu conjunto da obra. Assim, ele acabou se prostrando como um contraponto bem interessante a algumas histórias pífias que podem até ter uma invejável qualidade técnica, mas que não conseguem combinar essas duas características a fim de criar um produto singular.


Informações

  • Autoria Original: Daisuke Igarashi
  • Duração: 111 minutos
  • Ano: 2019
  • Direção: Ayumu Watanabe
  • Roteiro: Daisuke Igarashi
  • Trilha Sonora: Joe Hisaishi
  • Estúdio: Studio 4 °C

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P.S. 1: Nessa quarentena, eu li Planetes. O tema logo do terceiro ou segundo capítulo do mangá aborda exatamente a mesma ideia de Kaijuu no Kodomo ao contar uma história de uma garota que nasceu no espaço e tinha a imensidão da lua como o seu próprio oceano, numa relação muito similar a essa do “de onde viemos e para onde vamos”. 

P.S.2: Outro filme que lembra Kaijuu no Kodomo é Akira, já que ambos utilizam alegorias para explorar conceitos como o nascimento do universo, a natureza humana e singularidade — e se utilizam de uma qualidade técnica invejável e sequências psicodélicas para ilustrar suas mensagens. Pena que eu acabei deixando a comparação de lado na concepção do texto. Paciência. 

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